Plano de saúde é obrigado a custear cirurgia decorrente de erro em cirurgia estética?

A cirurgia plástica com finalidade puramente estética costuma estar fora da cobertura obrigatória dos planos de saúde. No entanto, quando o procedimento estético resulta em complicação que compromete a saúde do paciente — infecção, necrose, hemorragia, deformidade funcional, entre outras intercorrências — a situação jurídica muda. Nesses casos, a operadora pode ser obrigada a custear o tratamento corretivo, mesmo que a cirurgia original não fosse coberta pelo contrato.

A literatura médica reconhece que procedimentos estéticos e reconstrutivos podem evoluir com complicações relevantes — como infecções, necrose tecidual, seromas, hematomas, deiscência de ferida operatória e cicatrização inadequada —, algumas das quais exigem reintervenção cirúrgica para preservar a saúde do paciente (Vitagliano et al., 2023, Nutrients; Meshkin et al., 2023, Annals of Translational Medicine). É justamente esse tipo de desdobramento clínico que pode alterar a natureza jurídica do procedimento perante o plano de saúde.

Este artigo explica, de forma informativa, os fundamentos legais e a jurisprudência que orientam essa distinção.

A diferença entre cirurgia estética e cirurgia reparadora

A legislação e os tribunais tratam de forma distinta dois tipos de procedimento:

  • Cirurgia estética: tem finalidade embelezadora, sem relação com doença, lesão ou risco à saúde. Em regra, não integra a cobertura obrigatória dos planos.
  • Cirurgia reparadora ou funcional: destina-se a corrigir dano à saúde, à função de um órgão ou à integridade física do paciente, ainda que a causa original tenha sido um procedimento estético. Quando isso ocorre, o procedimento deixa de ter natureza meramente estética e passa a ter caráter terapêutico.

Essa distinção é o eixo central para determinar se o plano de saúde deve ou não custear o procedimento corretivo.

O que diz a Lei 9.656/98 e a regulamentação da ANS

O artigo 35-C, inciso I, da Lei nº 9.656/1998 estabelece a obrigatoriedade de cobertura para casos de emergência, assim entendidos aqueles que implicam risco imediato à vida ou lesões irreparáveis ao paciente.

Já o artigo 11 da Resolução Normativa nº 465/2021 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) determina que os planos devem cobrir o tratamento de complicações clínicas e cirúrgicas decorrentes de procedimentos não cobertos contratualmente — incluindo os de natureza estética —, desde que o tratamento necessário esteja previsto no rol de procedimentos da ANS.

Na prática, isso significa que, mesmo quando a cirurgia estética em si não é coberta, a operadora pode ter o dever de custear o atendimento decorrente de uma intercorrência grave.

O entendimento do STJ

Em decisão da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, de relatoria da ministra Nancy Andrighi (setembro de 2025), o tribunal reconheceu que o plano de saúde deve custear o atendimento de emergência decorrente de complicação surgida durante cirurgia estética não coberta pelo contrato, quando fica comprovado risco à integridade física da paciente. O entendimento se apoiou justamente no artigo 35-C da Lei 9.656/98 e no artigo 11 da RN 465/2021 da ANS, destacando que a origem estética do procedimento não afasta a obrigação de cobertura da emergência.

Esse raciocínio dialoga com o entendimento fixado no Tema 1.069 do STJ, no qual a Segunda Seção consolidou a obrigatoriedade de custeio de cirurgias plásticas de caráter reparador ou funcional indicadas pelo médico assistente, por entender que, nesses contextos, o procedimento integra o tratamento de uma condição de saúde e não pode ser tratado como mero embelezamento.

Quando a cobertura costuma ser devida

De forma geral, a jurisprudência tende a reconhecer a obrigação de custeio pelo plano de saúde quando:

  • A complicação decorrente da cirurgia estética representa risco à vida ou à integridade física, caracterizando urgência ou emergência;
  • Há indicação médica de que o procedimento corretivo tem finalidade funcional ou reparadora, e não apenas estética;
  • O tratamento necessário está previsto no rol de procedimentos da ANS, ainda que a cirurgia inicial não estivesse coberta;
  • O atendimento ocorre em estabelecimento credenciado à rede do plano.

A responsabilidade civil do médico ou da clínica pelo erro no procedimento estético, incluindo eventual reparação por danos materiais e morais, é discussão jurídica distinta da obrigação de cobertura do plano de saúde — as duas frentes podem ser analisadas de forma independente, conforme as circunstâncias de cada caso.

O que fazer diante de negativa de cobertura

Quando a operadora nega o custeio de um tratamento decorrente de complicação de cirurgia estética, é recomendável:

  1. Solicitar a negativa por escrito, com a justificativa apresentada pelo plano;
  2. Reunir relatórios médicos que descrevam a natureza da complicação e a indicação do tratamento;
  3. Verificar se o procedimento indicado consta do rol de procedimentos da ANS;
  4. Buscar orientação de advogado especialista em direito médico e da saúde para avaliar as medidas cabíveis diante do caso concreto.

Considerações finais

A obrigatoriedade de custeio por planos de saúde em situações de complicação de cirurgia estética depende da análise de cada caso — da natureza da intercorrência, da indicação médica e da caracterização (ou não) de urgência ou emergência. As decisões mais recentes dos tribunais superiores reforçam que a origem estética de um procedimento não afasta, por si só, o dever de cobertura quando a saúde do paciente é colocada em risco.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a análise individualizada de um caso concreto por profissional habilitado.

Compartilhe

Facebook
Twitter
LinkedIn